Expedição mapeia turismo sustentável no baixo São Francisco

Jun 26

Expedição mapeia turismo sustentável no baixo São Francisco


No largo de Xingó o turismo continua em alta.

Alagoas abre uma nova frente para levar desenvolvimento e inclusão produtiva - com foco no turismo sustentável - à população ribeirinha do Baixo São Francisco (BSF), que inclui parcerias institucionais com a Agência Espanhola de Cooperação Internacional (Aedi), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), governos de Estado e organizações não-governamentais.

A primeira ação institucional foi a Expedição Baixo São Francisco, realizada de 4 a 11 de dezembro, de Angiquinho, em Delmiro Gouveia, ao Pontal do Peba, em Piaçabuçu, que teve como missão demarcar novos caminhos turísticos, com potencial para a geração de emprego e renda para os moradores.

No largo de Xingó o turismo continua em alta em um segundo momento, ainda em dezembro, os governadores de Alagoas, Teotonio Vilela Filho, e o de Sergipe, Marcelo Deda, assinaram um acordo de criação do Plano Integrado de Desenvolvimento Sustentável para o BSF, que deve ser finalizado até junho deste ano, pelos dois governos.

Os protocolos foram assinados em Neópolis, em Sergipe, e Penedo, Alagoas, e entre as ações previstas e que serão discutidas e formatadas pelo grupo de trabalho dos dois estados estão o desenvolvimento agrícola, com ênfase na rizicultura, fruticultura e pesca; recuperação dos perímetros irrigados e áreas de várzea e a revitalização e abertura de novas rotas de turismo ecológico, histórico, patrimonial e de aventuras.

Os projetos de planejamento e de desenvolvimento sustentável para o BSF serão coordenados pela Secretaria de Planejamento (Seplan), e de acordo com o superintendente de Fomento e Estratégia do órgão, Fábio Leão, a idéia é apoiar projetos já em desenvolvimento da região. “Vamos atuar e fortalecer setores como piscicultura, infra-estrutura, agropólos no Canal do Sertão e as obras incluídas no PAC para o Baixo São Francisco. Com a Secretaria de Turismo (Setur), a Seplan está formatando a criação do Arranjo Produtivo Local (APL) do Turismo no Baixo São Francisco”, explica Leão.

A expedição foi composta por quatro espanhóis - doutores em destinos turísticos, conservação e restauração do meio natural - e por técnicos das secretarias de Planejamento e Orçamento, Turismo, Cultura, Recursos Hídricos, IMA, e consultores do Senac, Sebrae, e com reforço da ong alagoana Olha Olha o Chico.

“Estamos convencidos que o desenvolvimento do turismo como uma política pública, tem que ser feito por várias mãos, e quando ele é realizado com a colaboração internacional, e com a interação entre governos, certamente vamos avançar em novos roteiros turísticos para a região, para incorporá-los como oferta”, afirmou o secretário de Turismo de Alagoas, Virgínio Loureiro.

O grupo percorreu os 280 quilômetros da chamada costa doce das Alagoas, em missões de reconhecimento de área, coleta de informações e articulações com lideranças e com a própria população local. Ao final, a equipe da Aedi apresentou o projeto Dinamização do Turismo Sustentável e Ambiental do Baixo São Franscico, com todo o diagnóstico da área e propostas para o turismo na região.

O documento assinado pelos doutores Fernand Dia del Olmo, Núria Goli Espeld e José Donaire, foi apresentado em dezembro aos secretários e técnicos do governo, e em resumo propõe uma série de propostas e os resultados esperados.

Canoas recuperam corredor fluvial do Velho ChicoEntre os projetos pontuais propostos estão a sinalização e revitalização do corredor fluvial do Baixo São Francisco; aliança estratégica com a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) e a Fundação Delmiro Gouveia, para o uso turístico do Complexo da Usina de Angiquinho; revitalizar a rota fluvial-terrestre do cangaço, da viagem do imperador dom Pedro II, do bioma da caatinga; valorizar e dar visibilidade aos sítios arqueológicos, pinturas rupestres e museus de Xingó; valorizar a foz do São Francisco através da rica biodiversidade dos dunas e dos mangues; inserir a população local em projetos para a melhoria da qualidade da matéria prima e de produtos agrícolas e gastronômicos.

“Naturalmente, a participação da comunidade local e um trabalho conjunto do Governo do Estado, das pessoas da região e até do Governo Federal é muito importante. O foco precisa estar no desenvolvimento sustentável da região para não perder as coisas boas que a região tem. Alagoas precisa ter um desenvolvimento pausado, bem planejado. Trazer investimentos que estraguem a região, não adianta. É ganhar de um lado e perder do outro. Então, aí é importante que seja um investimento que beneficie a comunidade local, que traga conhecimento e que não se estrague o patrimônio cultural, histórico e natural da região”, explicou David Vasquez, coordenador da missão espanhola.

Chesf revitaliza Angiquinho
Seis anos após uma intensa luta pela revitalização do patrimônio do Complexo da Usina de Angiquinho, em Delmiro Gouveia, já tombado pelo Estado, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) entregou à população todos os equipamentos recuperados, que inclui as casas das bombas e das máquinas – que abrigam as turbinas da primeira hidrelétrica do Nordeste, construída por Delmiro Gouveia - a linha férrea, a casa onde morou o pioneiro Gouveia e a vila operária.

A Chesf – que investiu R$ 1,5 milhão na recuperação da usina - acaba de passar a gestão de Angiquinho a Fundação Delmiro Gouveia (FDG), que liderou o movimento pelo resgate do acervo.

“A luta agora é para que Angiquinho deixe a fila de espera pelo decreto do governo federal, e Ministério da Cultura para o tombamento nacional”, assinala Edvaldo Nascimento, vereador de Delmiro e coordenador da FDG. A decisão foi tomada em assembléia geral do conselho deliberativo superior da Chesf.

Passear no sítio histórico de Angiquinho é mover as rodas da história. Os casarios recuperados ficaram bem na foto; os dormentes da linha férrea ainda esperam a recuperação – a idéia é recompor o trajeto original, que transportava gente e cargas; nas entranhas da usina saem paisagens lunáticas, águas muito limpas mostram o fundo translúcido do Velho Chico. São pedras e rochas, e tocas de rio para todos os lados.

Descida até Angiquinhos é adrenalina puraO coração começa a bater mesmo nas escadarias de metal que desce 45 metros abaixo das rochas, no caminho da velha casa das máquinas, que abriga os três geradores Brown Bowers e Piccardi, que alimentavam a usina, com 1.250 killowats, fruto da cabeça do cearense Delmiro Gouveia.

A descida é adrenalina pura, escadas em espiral, com plataforma para mirante, de onde os olhos captam uma imagem inesquecível do que resta da cachoeira de Paulo Afonso, ou parte dela.

Cânions do Velho Chico têm paisagens lunáticasÉ linda a visão do Chico cercado por cânions, e uma cachoeira transbordante na entrada do lago da usina, que iluminou boa parte da região até nos anos 60. A casa das máquinas, o equipamento mais fotografado do complexo, continua presa às rochas, e é o ponto culminante do passeio, entrar naquele prédio arrojado e quase secular, e sentir segurança e êxtase. Principalmente ao abrir as janelas da casa e correr o olho nas rochas, no rio e na bela cachoeira.

Se você quiser, a adrenalina não pára. O complexo hidrelétrico da Chesf - que abrange Delmiro Gouveia e Paulo Afonso (BA) - está se tornando point dos esportes de Aventura é em Paulo Afonso.

Turismo de aventuras é na ponte metálicaO equipamento dos sonhos para quem curte um mergulho de bungee-jump, rapel ou tirolesa fica exatamente na divisa de Alagoas com a Bahia: a ponte metálica Dom Pedro II, considerada uma das mais altas do país, com 86 metros de altura.

Em Pão de Açúcar, o lendário artesão FernandoDe Pão de Açúcar a Belo Monte, as emoções transparecem a todo hora, quando o Velho Chico enche os olhos. Trilhas on the road, pelas estradas de barro, cortando a vegetação das caatingas, e que de repente, como em um passe de mágica, surgem bois, patos, garças, uma manada de ovelhas em pomares e pastos que mais parecem tapetes.

O passeio é de acelerar corações. O visual é estonteante, um visual deslumbrante: igrejinhas no alto e o Velho Chico esparramado no fundo. No começo são muitas caatingas (na tardinha o sol corre ao fundo). Em um passe de mágica, surgem áreas de pastos, boi ruminando e as garças comendo seus piolhos e completando o ciclo biológico (parecem namorados: a ave e o boi); muitas planícies e pomares com mangueiras frondosas beirando o Chico. E lá se vão Limoeiro, Vila Alecrim - uma das mais antigas do Brasil, tem quilombola no local - Santiago e Jacarezinho. Nos quatro povoados é possível perceber muita gente bonita e receptiva, mas pobre, vivendo do peixe e do Cartão Bolsa Família, em uma região marcada pela falta absoluta de saneamento.

Em Belo Monte é imperdível a trilha até onde começou a colonização no Baixo São Francisco, a Barra do Ipanema, em Belo Monte. No meio do Velho Chico, encravada na Ilha do Ouro, está um dos sítios históricos mais importantes do BSF: a Igreja de Nossa dos Prazeres, a mais antiga do Baixo, que foi construída por índios escravizados pelos colonizadores. O povoado tem fechadas originais de casas do tempo do império, com platibandas desenhadas em arabesco e paredes descascadas pelo tempo.

Museu de arqueologia mostra vida pré-históricaArqueologia reacende passado do Velho Chico
A arte rupestre registrada em sítios arqueológicos da própria região ou expostos em museus de alta tecnologia está transformando o semi-árido e toda área do bioma da caatinga em museu natural ao vivo e atraindo turismo e investimentos de peso. Só no Museu Arqueológico do Xingó (MAX), são 40 mil visitantes – a maioria de estudantes e pesquisadores - que chegam ao coração de Xingó, entre as eclusas da hidrelétrica, às margens do Velho Chico, na confluência das cidades de Canindé do São Francisco (SE) e Piranhas (AL).

Nas rochas do Talhado, em Olho d'Água do Casado, inscrições rupestres resistem ao tempoMas quem quiser ver ao vivo e em cores os sítios, com painéis de artes rupestres, não é difícil achar um guia local, que leve os visitantes aos mais de 200 sítios contabilizados por arqueólogos e programas de recuperação desse acervo.

Um deles é o estudante José Inácio de França, morador de Olho d’água do Casado, onde fica boa parte dos sítios com desenhos nas rochas, escondidas e protegidas de predadores por locais de difícil acesso. São verdadeiros labirintos, em caminhos pedregosos e a presença constante das caatingas sertanejas.

Inácio de França mergulha nas veredas das caatingas e dos rios secos até encontrar o primeiro sítio. Uma placa de identificação do projeto Trabalho e Arte no Sertão Antigo, e uma ong local, que atua também com trabalhos de conservação de mais 15 sítios de grafismo pré-histórico na região dos cânions do Talhado.

Nas paredes estão pássaros, lagartos, pessoas, lugares, símbolos abstratos, quase sempre em tons avermelhados, possivelmente em conseqüência de corantes e pigmentos de óxido de ferro, já usados pelos ancestrais de Inácio para expressar sua forma de pensar e agir.

“Os agricultores e os caçadores acreditam até hoje que os rabiscos foram feitos pelos cablocos das matas. Mas depois a gente aprende que foram feitos pelos nossos antepassados e tem muito valor histórico”, afirmou o guia Inácio.

Totalmente climatizado e ares modernista, o Max surpreende o visitante com seu acervo de mais seis mil pedras lascadas e polidas, que trabalhadas pelas mãos do homem pré-histórico se transformaram em instrumentos e artefatos de vida e de morte.

O museu mostra nove mil anos de ocupação humana no Baixo São Francisco. Onde tribos nômades de paleoíndios se deslocavam entre os terraços (parte baixa) e os platôs (parte alta) do Velho Chico ancestral. Tanto é que o nome da exposição permanente do MAX já diz tudo: “Xingo, uma aventura arqueológica no Sertão”.

O museu foi reconhecido, em dezembro, como de referência nacional, ao receber do ministro da Cultura Gilberto Gil e do presidente Lula, a Ordem do Mérito Cultural da Classe Cavaleiro, como referência em educação patrimonial.

Novos investimentos
A concentração desses sítios rupestres em Xingó ganha um novo impulso no começo desse ano. A Petrobras está investindo R$ 3 milhões na construção do Centro de Arqueologia e Antropologia de Paulo Afonso (CAAP), no lado baiano da ponte metálica, divisa com Alagoas. A fachada do CAAP terá estrutura de vidro e aço, mas grande parte do museu será a céu aberto, com a introdução de passarelas no acesso aos parques arqueológicos explorados, através de pontos de observação em grandes paredões de granito com inscrições e grafismo rupestre.

Maquete do novo museuDe acordo com Cleonice de Souza Vergne, coordenadora de Pesquisa Arqueológica do Museu de Arqueologia de Xingo (MAX), em Canindé do São Francisco (SE), e uma das gestoras do CAAP, 115 sítios já estão sendo trabalhados para visitação e mais sete em negociação. “Mas ainda não temos capacidade financeira para arcar com a manutenção e a pesquisa, que são fundamentais. A Chesf? só cobre um terço do investimento, precisamos de parceiros”, ressalta Cleonice.

Canoa de tolda volta a todo vapor
O processo de tombamento material e imaterial da arte da carpintaria naval do Baixo São Francisco (BSF) e da canoa de tolda – principal símbolo dos bons tempos da navegação fluvial da região e em situação de risco de desaparecimento – se arrasta há sete anos nas gavetas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília.

Canoa de tolda: símbolo do baixo São FranciscoO alerta é da Sociedade Sócio-Ambiental Canoa de Tolda, organização não-governamental que atua desde 1997 no BSF, que conseguiu restaurar a canoa Luzitânia (só existem mais dois exemplares de tolda em todo o mundo: um no Museu Nacional do Mar, em Santa Catarina, e outro em Piranhas, Alagoas). A principal característica da embarcação é ter duas belíssimas velas ao longo de sua envergadura de madeira.

“A canoa de tolda é o símbolo da prosperidade no Baixo Chico. Havia cem, duzentas canoas aqui para cima e para baixo, todas eram de tolda e chatas, a chata era uma canoa menor um pouquinho, sem cabine na proa. A canoa carregava o arroz, o barro, as pessoas, os recados. Levava dinheiro para cima e para baixa, enfim, ela era a força, o símbolo da economia local, e pode vir a ser de novo o grande fator de agregação da comunidade ribeirinha”, afirma o presidente da Sociedade Canoa de Tolda, Carlos Eduardo Ribeiro Junior.

Canoa de tolda
A Luzitânia, que na época do cangaço se chamava Rio Branco, carregou muito queijo, querosene e é considerada uma canoa sertaneja. Pronta para zarpar, a canoa de tolda se prepara uma temporada de viagens, a partir de fevereiro, no leito do Baixo São Francisco, quando voltará a exibir toda sua grandeza no projeto Rota das Canoas, a Navegação Tradicional no Baixo São Francisco.

"Vamos refazer a viagem para o sertão como era feita há 100 anos, à vela. Nós temos uma embarcação de apóio, uma lancha de alumínio se tiver que fazer uma evacuação rápida", diz. A idéia é fazer o trajeto original mais conhecido que é a rota Piranhas/Foz do São Francisco, de acordo com a rede de Turismo Rural na Agricultura Familiar (Traf), programa do Governo Federal que tem como objetivo promover o desenvolvimento rural sustentável mediante a implantação e fortalecimento, pelos agricultores familiares, das atividades turísticas integradas aos arranjos produtivos locais, com geração de renda e trabalho no meio rural.

"Hoje, nós conseguimos fazer toda essa trajetória de 10 anos para botar essa embarcação de volta na água sem um tostão de dinheiro público, apenas com mobilização pessoal, carregando tudo na cabeça, vontade de fazer. E, claro, as pessoas na comunidade que ajudaram a gente", diz o presidente da ONG, Carlos Eduardo.

Desta forma a canoa de tolda deveria ter um papel de destaque, como por exemplo, ser a marca corporativa do turismo sustentável no BSF. A canoa é visualmente muito bonita e tem peso histórico e geopolítico: Une Alagoas e Sergipe, os únicos Estados brasileiros que têm exemplares em perfeita condição de uso.

Já a construção de outros modelos não está tão fácil como parece, pois não se trata de linha de montagem, mas a pura arte dos velhos construtores de canoas que já não são mais os mesmos, como atesta Carlos Eduardo.

Para ele, além da falta dos grandes mestres da carpintaria naval do Velho Chico, outro sério problema dificulta ainda mais novas cópias, o desmatamento de espécies nobres de madeira. "A madeira acabou. As embarcações eram feitas, totalmente, com madeira local, braúna, pau d'arco, cedro, e tudo isso se acabou, você não tem mais madeira na beira do Rio. Então, isso se acabou, a economia mudou, a função da canoa, que era o objeto de carregar carga, deixou de ter valor, porque não havia mais carga, Dessa forma, a canoa deixou de ter valor, só o valor afetivo, que é muito forte", diz.

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